Uma honra? Não, esse não é o ponto. O ponto também não é tirar onda. E eu também não estava lá por ser uma espécie de Diana Court. Estava lá por que achava que minha turma devia ser representada por alguém que estava nela desde o começo. E ninguém em tal situação se manifestou. Pra evitar que o discurso caisse em mãos erradas, fui lá eu, e falei o que achava que eles queriam ouvir - não sem antes pintar o cabelo (e as sobrancelhas) de um verde bizarro, chamativo e brilhante que, por trás das minhas palavras hipócritas e sinceramente disfarçadas, gritava um alto e sonoro "fuck!" acompanhado de gargalhadas sinistras.
O que narro a seguir é não o que fiz naquele dia, mas o que deveria ter feito.
Dia de formatura
Manhã. Vou apanhar meu traje. Antes de sair de casa, checo a tinta verde. No caminho de volta, confirmo o horário com a maqueadora. Checo meu discurso, mesmo sabendo que não o usarei, fazendo isso na frente de outras pessoas, para que elas possam perceber minha 'preocupação'.
Tarde. Tomo banho. Visto o terno. Roxo. Por baixo uma camisa verde e uma gravata borboleta, de lei. Protejo meu traje enquanto aplico a tinta verde ao cabelo. Verde limão, chamativo e grotesco. Como algo que não é saudável, algo contaminado. Quão amarelos meus dentes estão? Não importa. Estarão amarelos o suficiente quando entrar o toque final. A maqueadora torna meu rosto pálido o mais que pode, disfarça minha aparência de forma que meus olhos cresçam. E me dá um belo sorriso de lábios escarlates, quase de orelha a orelha. Eu disse que os dentes estariam amarelos o suficiente.
Noite. Teatro central da cidade, onde o circo é armado. Adolescentes de terninho ou longo, dependendo da prefêrencia. E também não são todos. Alguns ainda parecem normais. O cara de cabelo verde chama atenção - não chamaria? O terno roxo nem era necessário - mas um personagem é um personagem: sejamos fiéis ao original!
No local do 'espetáculo', me assento numa das primeiras fileiras, à esquerda, junto com o resto dos formandos e espero a hora. Quando anunciam meu nome pra fazer a 'oração', envio uma mensagem pré-digitada de meu celular. Eu tenho dois minutos no palco. Eis o discurso que segue, logo depois que rasgo o original bem na frente do 'público':
"Não preciso disso", me referindo ao discurso recém-rasgado. "É o seguinte, algumas pessoas me perguntaram do porquê do visual homenageando o Coringa, e na hora, não pude responder. O motivo é que eu queria fazer uma piada. Vocês todos têm feito uma grande piada no mundo, não tem? Suas vidas e as vidas dos outros, e tudo que fazem são piadas com elas. Pois bem, hoje é o dia em que eu faço uma das grandes!"
Nesse momento, as pessoas houvem o que se parece com dez fuzis sendo armados nos camarotes sobre e em volta deles - e são dez fuzis. Dez homens vestidos de palhaços os apontam pro pessoal lá em baixo. Alguns se desesperam, mas são acalmados pelos outros. Ninguém entende nada. Meus colegas são os mais perdidos, e os mais medrosos. Eu apenas digo "Atirem" e o som alto de tiros faz com que todos se abaixem e gritem desesperados.
Os dez palhaços tiram as máscaras, largam os fuzis e saem por onde quer que tenham entrado. Eu olho pro público que demora a entender o que aconteceu, menos do que demora pra ter coragem de se levantar de baixo dos bancos do teatro.
Quando os dez ex-palhaços, já vestidos normalmente, pessoas que eu conhecia de diversos lugares e até mesmo do colégio, entram pelas portas do fundo do teatro, todos olham curiosos pros dez jovens que sorriem. Eles olham pra mim. Os convidados da formatura, de trás de cada cadeira, olham pra mim assustados e sem entender. É ai que eu grito:
"YOU GOT PUNK'D!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!"
Eles ainda demoram meia-hora até alguém tomar coragem e ir checar os camarotes e encontrar as máscaras, os fuzis de brinquedo e os dez aparelhos de som portáteis...
STARDATE:-666.††

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